"...Naquele dia eu quis ter alguém querido me esperando em casa, com uma xícara de chá quente, hmmm, um chá de canela, um abraço apertado. Aquele dia causou umas cólicas existenciais em mim. Eu senti muita falta do corpo dela suando no lençol. Mas quem era ela? Quem era eu, afinal? Senão só mais um, mais um sendo mais um no mundo. Essas coisas solitárias, etc e tal. Eu senti falta da felicidade dela fazendo feliz a minha tristeza. Sei lá, dela toda, sentada à mesa só de lingerie, na ponta dos pés atravessando o quintal. Eu senti tanta falta nela que, nisso, acabei por sentir falta de mim. O ventilador ligado, o barulho das paredes rachando cada vez mais pelas infiltrações. A gente costumava ficar tão doidão, atingir esferas tão altas, que dava pra escutar até as vozes pelas paredes. E eram vozes dos tijolos mesmo, do rejunte, da tinta. Todas as vozes que participaram do processo inteiro até que tudo aquilo existisse. Se a gente não quiser ser feliz, a gente vai querer o quê? Só me ocorre, então, o sorriso dela, os dentes amarelados, o cheiro de cigarro (...)"
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