Hoje amanheceu dando bom dia aos passarinhos, ao porteiro, ao papel de bala no chão da rua. Hoje, uma barata passou pertinho do seu pé e ele até se assustou, mas acabou sorrindo pra ela. Hoje, chegou a conclusão de que só se chegam a conclusões com o tempo. Aproveitou o ecstasy de se sentir apaixonado e correu numa reta qualquer de um lugar lindo qualquer na esperança de se sentir confortável pra dizer um "eu te amo" qualquer. Dito e feito. Notou que tinha uma pedra no caminho. Hipnotizante. Seu nome era Maria. Guardou ela por tanto tempo, segurou essa pedra com tanta força que ela acabou morrendo sem ar e ele, coitadinho, ficou sem inspiração pra fazer uma loucura de amor. A maior loucura que fizera por amor foi olhar com sinceridade no olho de Alguém e dizer "eu te amo". Eu sei disso porque eu estava lá. Ele merecia apodrecer num hospício. Mas não foi. Mais pra frente -com o tempo- perceberia que existem várias pedras no caminho. Poupou suas lágrimas ao perceber que a solidão, pra quem vive em Brasília, é quase inevitável. Guardou elas pra um momento triste já que tal solidão vinha chegando. Chegou. Lhe trouxe uns sorrisos educados, uma malícia no seu comportamento em uma mesa de bar e sede, muita sede. Logo, ela, a Solidão, se despediu e deu o seu lugar pra Joana que o levou pra tomar um bom vinho numa varanda fria. Tinha muito vinho pela frente mas ele já estava bêbado de Joana. Então Joana foi embora. A solidão já estava estacionando no seu prédio quando percebeu que as luzes do seu quarto estavam ligadas. Também viu uma silhueta feminina. Lá estava Tereza querendo um espaço no lençol. A mais bonita e doce de todas as Terezas que ele já tinha visto. Não teve e não tem coragem de lhe dizer "eu te amo" muito menos lhe oferecer um vinho por questões de estatística. Ou simplesmente medo. Ele me contou que vai ficar por perto. Me disse também que ela é boa de cama e que se tiver um filho com ela não vai dar palpite na escolha do nome. Acho aleatório os papos que eu tenho com ele.
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